Anda aí coisa

O nervoso miudinho começava a instalar-se sem convite. Primeiro foi-se o apetite, depois vieram os arrepios na barriga, a perturbação imiscuiu-se e a soma destes sentimentos – a que os sábios resumem numa palavra, medo – era ironicamente aspergida com um estúpido e infantil contentamento indisciplinado no qual os amigos haviam já reparado. “Anda aí coisa”, diziam-lhe. E a coisa não andava longe. Ele antecipava a chegada do dia. Muito em breve iria poder mostrar-lhe a música que lhe fizera. Ou, visto de outro molde, se quisermos ser honestos, a música que prodigiosamente lhe tinha toado na cabeça quando, ainda estremunhado, abria na segunda-feira de manhãzinha os olhos para enfrentar a claridade do dia. Não sei se, tendo sonhado a melodia que lhe iria oferecer, pode dizer-se que foi ele quem a compôs. Ainda assim, sente-se no direito – e toleremos-lhe a ousadia – de reclamar para si a sua lavra. Afinal, foi quem a sonhou, ainda que lhe tenha sido consagrada numa bandeja de prata e ouro por um qualquer deus com bazófia de Cupido madrugador. Mas era isso. Estava por dias, senão por horas, a mais secreta declaração de amor que alguma vez tenha tido coragem de conhecer em si mesmo. Mas não haveria de lhe falar já da razão da sua inspiração. Nem sabe se alguma vez o fará. Não suportaria, para já, deixar estilhaçar em mil pedaços a desmesurada felicidade que lhe anda aí estampada no rosto.