As Noites em que o Cão Ladra (III)

Tinha de fazer algo por si. A verdade é que só de pensar em estar em casa fazia com que se apoderasse de si um medo áspero. Quando outro programa não arranjava, os serões que passava a forrar o sofá com o seu corpo, de comando na mão num enfurecido zapping, eram visitados constantemente pelos arrepios que os seus nervos não conseguiam evitar. Afastava a todo o custo a hipótese de apagar as luzes, ir-se deitar e voltar a sujeitar-se a novo confronto com o que, a princípio, sobressaltava apenas o cão, mas que agora era também a causa dos seus olhos raiados de sangue de não pregar olho noite após noite. Há já alguns dias que não via nada de estranho com os seus próprios olhos. No entanto, era rara a noite em que o cão não começasse a rosnar para uma divisão da casa, de onde saía a ganir após a investida, vindo enrolar-se à volta dos seus pés, num inocente convencimento de que ali não lhe faltaria protecção.
Opção mais cobarde não poderia existir. Quando as 4h30 da manhã começavam a aproximar-se, os auscultadores nos ouvidos berravam até quase lhe ferir os tímpanos, enquanto as pálpebras eram cerradas com tanta força que as têmporas lhe doíam. Mas com que pretexto fugiria – sim, esse seria o termo – de casa? Só de imaginar os anos de chacota dos amigos que se seguiriam se contasse o que se passava a alguém… Ajuda médica? Sim, talvez fosse por aí. Mais um caso para um diplomado qualquer o encharcar em comprimidos, ainda que sob a explicação de que o cão era testemunha do que se passava lá em casa.
Mas era fugir do inevitável. A noite passada, às 4h30 em ponto, enquanto os sons estridentes produzidos pelo seu iPod tentavam iludir-lhe a mente, os lençóis que o cobriam deram um salto no ar, como se, de repente, fossem puxados que nem uma marioneta. Gelou, o coração disparou e, acto contínuo, abriu os olhos e arrancou os auscultadores dos ouvidos. E ali estava, mesmo à sua frente, em pé aos pés da cama, a menina que tinha visto entrar na arrecadação algumas noites antes. A olhá-lo fixamente com olhos negros e chorosos, o vestido branco amarrotado e, na mão, um peluche gasto e seco pelo tempo. Um cheiro bafiento invadiu-lhe o quarto de forma nauseabunda.
– Quem és tu? Que queres daqui? – perguntou-lhe num tom inadvertidamente agressivo e comandado pelo pânico. Queria ter o cão ali perto de si, mas na verdade, nem sabia bem para quê. Só que nem um sinal do seu velho companheiro.
Imóvel, a criança continuava a fitá-lo continuamente, mas com um olhar cada vez mais agressivo e sem um sinal de que fosse responder. Ele tenta repetir a pergunta: – Quem és… Mas a menina nem deixou terminar a pergunta. Interrompe-o com um guincho sibilante e com os dentes cerrados, atirando-lhe um olhar de ódio, e desaparece como se se esfumasse no ar. O cheiro a bafio dá lugar a um aroma doce e perfumado. O cão aparece, finalmente, entra no quarto, como se viesse ver o que se passava, lambe-lhe a mão e enrosca-se aos pés da cama para continuar o seu sono.

As Noites em que o Cão Ladra (I)

As Noites em que o Cão Ladra (II)

As Noites em que o Cão Ladra (IV)