A Música Vestiu-se de Sonho

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Começou o dia com os acordes na cabeça. Finalmente parecia-lhe que tinha ali o esboço de uma música, a música que se tinha prometido fazer-lhe. Ele não sabe bem como aconteceu, foi como se tivesse sonhado com a melodia. Às vezes é assim mesmo, gasta-se o tempo e cansam-se os dedos nas cordas da guitarra a forçar o que simplesmente sairia descabido para, de repente, a música vestir-se de sonho e chegar de madrugada. Mas logo hoje?, pensou, revoltado por ser o primeiro dia de trabalho depois das merecidas férias. Ele já tinha dedicado boa parte da sua inspiração a pensar como fugiria ao estúpido e já costumeiro “Souberam a pouco” perante a desinteressada pergunta “Como correram as férias?”. Talvez o alento lhe tenha surgido dos “Edukadores”, na sessão da noite do King, na véspera. Tinha-se esquecido da existência de Jeff Buckley. E os seus acordes, no enredo, o dedilhado daquelas doces cordas, no meio daquele amor revoltado e revolucionário, ficavam a matar. As notas ecoaram-lhe ao longo de todo o dia como se de um anjo da guarda se tratasse. As notas da música para ela, finalmente. Uma música para ela, sim, era isso.