A Dança

Sentiu de repente uma voz sussurando-lhe ao ouvido: “O que vês nas estrelas?”. Foi então que em poucos segundos lhe vieram à memória todas as boas recordações da sua vida. “Vejo-te dançar nelas”, respondeu. E ali ficou até ao amanhecer, deixando para trás apenas a marca salgada das suas lágrimas, aquelas que lhe deixaram no rosto lugar para um eterno sorriso.

Very Best

A sua vida, no fundo, era um colossal plágio. Alimentava consigo a ideia de que copiando os outros no que estes tinham de melhor consubstanciava no seu ser uma espécie de antologia de bons exemplos. Ele era, no fundo, um Very Best da sociedade moderna. E este peculiar modus operandi preencheu-o de uma plena felicidade até ao fim dos seus dias, pelo que conseguiu tolerar de espírito leve o facto de os outros sempre terem visto nele um génio.

As Noites em que o Cão Ladra (IV)

Esteve nos copos com os amigos do escritório até de madrugada. Assim adiou mais uma vez o regresso a casa, insistindo na sua cobarde estratégia de fuga. Às 6h da manhã caiu de podre na cama, adormecendo instantaneamente, mas menos de duas horas depois não conseguiu deixar de acordar com o intenso e fastidioso cheiro doce, como que de frutos quentes, que conquistava a casa

 

As Noites em que o Cão Ladra (I)

As Noites em que o Cão Ladra (II)

As Noites em que o Cão Ladra (III)

As Noites em que o Cão Ladra (III)

Tinha de fazer algo por si. A verdade é que só de pensar em estar em casa fazia com que se apoderasse de si um medo áspero. Quando outro programa não arranjava, os serões que passava a forrar o sofá com o seu corpo, de comando na mão num enfurecido zapping, eram visitados constantemente pelos arrepios que os seus nervos não conseguiam evitar. Afastava a todo o custo a hipótese de apagar as luzes, ir-se deitar e voltar a sujeitar-se a novo confronto com o que, a princípio, sobressaltava apenas o cão, mas que agora era também a causa dos seus olhos raiados de sangue de não pregar olho noite após noite. Há já alguns dias que não via nada de estranho com os seus próprios olhos. No entanto, era rara a noite em que o cão não começasse a rosnar para uma divisão da casa, de onde saía a ganir após a investida, vindo enrolar-se à volta dos seus pés, num inocente convencimento de que ali não lhe faltaria protecção.
Opção mais cobarde não poderia existir. Quando as 4h30 da manhã começavam a aproximar-se, os auscultadores nos ouvidos berravam até quase lhe ferir os tímpanos, enquanto as pálpebras eram cerradas com tanta força que as têmporas lhe doíam. Mas com que pretexto fugiria – sim, esse seria o termo – de casa? Só de imaginar os anos de chacota dos amigos que se seguiriam se contasse o que se passava a alguém… Ajuda médica? Sim, talvez fosse por aí. Mais um caso para um diplomado qualquer o encharcar em comprimidos, ainda que sob a explicação de que o cão era testemunha do que se passava lá em casa.
Mas era fugir do inevitável. A noite passada, às 4h30 em ponto, enquanto os sons estridentes produzidos pelo seu iPod tentavam iludir-lhe a mente, os lençóis que o cobriam deram um salto no ar, como se, de repente, fossem puxados que nem uma marioneta. Gelou, o coração disparou e, acto contínuo, abriu os olhos e arrancou os auscultadores dos ouvidos. E ali estava, mesmo à sua frente, em pé aos pés da cama, a menina que tinha visto entrar na arrecadação algumas noites antes. A olhá-lo fixamente com olhos negros e chorosos, o vestido branco amarrotado e, na mão, um peluche gasto e seco pelo tempo. Um cheiro bafiento invadiu-lhe o quarto de forma nauseabunda.
– Quem és tu? Que queres daqui? – perguntou-lhe num tom inadvertidamente agressivo e comandado pelo pânico. Queria ter o cão ali perto de si, mas na verdade, nem sabia bem para quê. Só que nem um sinal do seu velho companheiro.
Imóvel, a criança continuava a fitá-lo continuamente, mas com um olhar cada vez mais agressivo e sem um sinal de que fosse responder. Ele tenta repetir a pergunta: – Quem és… Mas a menina nem deixou terminar a pergunta. Interrompe-o com um guincho sibilante e com os dentes cerrados, atirando-lhe um olhar de ódio, e desaparece como se se esfumasse no ar. O cheiro a bafio dá lugar a um aroma doce e perfumado. O cão aparece, finalmente, entra no quarto, como se viesse ver o que se passava, lambe-lhe a mão e enrosca-se aos pés da cama para continuar o seu sono.

As Noites em que o Cão Ladra (I)

As Noites em que o Cão Ladra (II)

As Noites em que o Cão Ladra (IV)

Teorias da Velocidade

Estou certo de que o Homem subestima a velocidade e o poder de fuga dos caracóis. É igualmente certo que a quem lhe escorregar das mãos, vá lá, digamos, um melão – não muito maduro – numa calçada, nunca mais o apanha.

As Noites em que o Cão Ladra (II): O Sabor Amargo da Madrugada

Há alguns dias que tudo está mais quieto. O cão já o deixa dormir e ele, talvez por defesa, optou por apagar das suas memórias o episódio da menina que tinha visto na outra noite a entrar na arrecadação do pátio. Pensou que sonhara, ou que estaria demasiado cansado e, vendo bem as coisas, os gatos têm mesmo visitado o quintal, o que deixa no cão uma peculiar irritação que acaba por desassossegar toda a casa. Como se todos tivessem de acudir noite fora na protecção do território que o bicho julga ameaçado. Por isso não cogitou mais no assunto. Mas evidente passou a ser que sempre que se levanta de noite, independentemente da razão, nem olha para a janela. As investidas à arrecadação, passou-as a fazer unicamente à luz do dia e, até hoje, nunca contou a ninguém o que viu naquela noite. Não sabe se esta atitude, a de ignorar o que aconteceu, ou fingir que apenas o sonhou, será a mais correcta, mas pareceu-lhe, sem escrúpulo, a mais confortável. Pelo menos assim era até à noite passada. Bruscamente, uma sede incontrolável roubou-o ao seu sono e a garganta, de tão seca, quase não o deixava respirar. A boca parecia que colava e assombrava-o a estúpida ideia de que a aflição não lhe permitiria sequer chegar à cozinha. A viagem até à torneira seria uma provação, mas não lhe restava outra condição. Acendeu a luz e, agarrado às paredes como se vivesse a maior ressaca dos seus dias, escorregou pelo quarto, atravessou o hall e atirou-se como um faminto ao bocal onde saciou a sua angústia. A cada trago que ingeria, sentia, uma a uma, as células do seu corpo recuperarem e viu-se renascer. Estava pronto para regressar aos lençóis, agora com outro vigor e na certeza de novas forças para o dia seguinte. De volta ao quarto, olhou quase sem dar por isso para o grande espelho do hall da entrada e foi então que lhe veio um amargo sabor à boca e o coração, mais uma vez, disparou como se quisesse pular ali mesmo para o meio do chão. Não havia dúvida, e não poderia estar mais lúcido. No reflexo, viu claramente um vulto a desaparecer para o nada atrás de si. Virou-se num movimento impetuoso, mas o sossego era o mesmo de há segundos, no meio da escassa luz que vinha lá do fundo, da sua mesa-de-cabeceira. Pouco faltava já para o amanhecer e o cão, estendido onde sempre se habituara a cochilar, limitava-se a segui-lo com os olhos em todos os seus movimentos. Todo o dia que se seguiu foi acompanhado do mesmo sabor amargo daquela madrugada.

As Noites em que o Cão Ladra (I)

As Noites em que o Cão Ladra (III)

As Noites em que o Cão Ladra (IV)

As Noites em que o Cão Ladra

Efectivamente não era habitual, aquilo, e a situação já estava a dar com ele em doido. Há várias noites seguidas que o cão ladrava a esganiçar-se para a janela que dá para o pátio. O próprio animal não pregava olho, plenamente invadido pela obsessão com os escassos dez metros quadrados, lá fora, e a pequena arrecadação lá ao fundo com a porta entreaberta. Invariavelmente à mesma hora, todas as noites, por volta das quatro e meia, para ser mais conciso, aquele momento em que o sono atinge o seu estado mais profundo. De nada serviam os castigos ao patife e as inofensivas, mas marcantes, palmadas no focinho só para o reprimir. Talvez a solução para o problema passasse antes por um método qualquer para afastar os gatos do quintal e acabar de uma vez com a desordem. Mas até ideia melhor, a rotina das últimas noites prometia repetir-se. Lá se levantava, mandava calar o cão e abria a porta do pátio, para onde o bicho saía disparado a correr, a cheirar tudo, e para investigar com urgência a arrecadação. “Anda para dentro, é de noite, e os gatos já se foram”, dizia-lhe, já em angústia, naquela inocência humana de que os cães percebem, palavra por palavra, o que lhes dizemos. As restantes horas até de manhã para o cão eram passadas a latir, tal não era o seu medo de que os gatos “invadissem” o “seu” território. Na última noite atingiu o limite. Estava especialmente cansado e o cão lá parecia um relógio, a rosnar e a ladrar desalmadamente às quatro e meia da manhã, com as patas apoiadas no beiral da janela. Ele levantou-se determinado e tinha decidido, independentemente do frio, fechar o cão lá fora. Nem acendeu a luz. Aproximou-se, percorreu com o olhar o exíguo espaço para confirmar que não estaria a chover e para ver se encontrava os culpados de tal desassossego. E foi então que viu. Uma criança. Uma menina, com não mais de oito anos de idade, um vestido despretensioso, de dormir, e um peluche debaixo do braço. O rosto, mergulhado nos cabelos pretos que lhe caíam pelos ombros, continha daquela tristeza de quem tinha estado a chorar. À distância, cruzaram olhares, mas não mais do que cinco segundos. A catraia, sempre de rosto inalterado, deu meia-volta e entrou na arrecadação. Com o coração aos pulos e com o cão aos pés, irrequieto como nunca, foi lá fora, abriu lentamente a porta da arrecadação, entrou e acendeu a luz. Mas nem vestígios. Foi como se a menina nunca ali estivesse. “Estou morto de cansaço”, pensou, e voltou-se a deitar. Só que não dormiu nem mais um segundo e limitou-se a esperar que a manhã lhe desse pretexto para sair dali.

 

As Noites em que o Cão Ladra (II)

As Noites em que o Cão Ladra (III)

As Noites em que o Cão Ladra (IV)

Numa Fria Noite de Lisboa

A noite estava fria, mas nada iria demovê-lo do passo que tinha dado. Num gesto de coragem que nunca antes ousara, o mojito vestiu a sua melhor hortelã, passou-lhe ao de leve as mãos numa vã tentativa de disfarçar o ar engelhado e saiu de casa. Os nervos não aquietavam nem com gelo picado. O encontro era agora. Estava tudo irreversivelmente planeado com a bola de gelado de creme de leite. Sonhava com o momento há vários dias, mas a timidez, seu apanágio de tenra idade, quase lhe prendia as pernas e obstruia a respiração. Tudo iria começar às 22 horas, no Largo do Camões, em caminho para ambos, entre a Rua do Diário de Notícias e o Häagen-Dazs, onde o mojito costumava deixar o olhar preso naquela vitrina onde ela sempre lhe sorria à passagem para o eléctrico que o levava até ao café na esplanada da Graça. O poeta, do cimo da estátua, testemunhou a atitude desajeitada daqueles dois. Envergonhados, trocaram rubores e confessaram-se entre contemplações que dispensaram promessas e sentenças. A bola de gelado nunca alimentara esperanças antes, sentia-se sempre desencorajada por ter interpretado mal o interesse de que tinha ouvido falar do mojito pela tosta de frango do Páginas Tantas. Mas tudo ficou desvendado. O mojito sossegou-a, garantiu-lhe que tudo não passava de uma velha amizade e até lhe falou de uma quente amiga nova, uma tosta de frango e banana no n.º 165 da Rua da Rosa, que ela também tinha de conhecer. “Quer-me parecer que se vão dar bem”, dizia-lhe. Não demorou muito até se envolverem na sempre amante noite de Lisboa até acabarem a ver nascer o sol no miradouro da Senhora do Monte. Efectivamente, a bola de gelado começara já há minutos a exibir um ar desesperado, mas era tarde. Os primeiros raios de sol da manhã, impiedosos e sem indulgências, derreteram-na e ela desapareceu por entre as pedras da calçada. Para o mojito, aquela amargura era fardo imenso e pouco mais resistiu ao dissabor daquela manhã. Num acto de cólera e desespero, duas noites a seguir, imiscuiu-se numa tertúlia do Bairro Alto e deixou-se beber.

Condudo Ela Move-se

Começa-se na grande cidade, percorre-se vales e montanhas, brinca-se aos olhares com o verde e os rios, guardam-se as memórias a sete chaves e regressa-se ao mesmo sítio. Não, não é a terra que é redonda.

Anda aí coisa

O nervoso miudinho começava a instalar-se sem convite. Primeiro foi-se o apetite, depois vieram os arrepios na barriga, a perturbação imiscuiu-se e a soma destes sentimentos – a que os sábios resumem numa palavra, medo – era ironicamente aspergida com um estúpido e infantil contentamento indisciplinado no qual os amigos haviam já reparado. “Anda aí coisa”, diziam-lhe. E a coisa não andava longe. Ele antecipava a chegada do dia. Muito em breve iria poder mostrar-lhe a música que lhe fizera. Ou, visto de outro molde, se quisermos ser honestos, a música que prodigiosamente lhe tinha toado na cabeça quando, ainda estremunhado, abria na segunda-feira de manhãzinha os olhos para enfrentar a claridade do dia. Não sei se, tendo sonhado a melodia que lhe iria oferecer, pode dizer-se que foi ele quem a compôs. Ainda assim, sente-se no direito – e toleremos-lhe a ousadia – de reclamar para si a sua lavra. Afinal, foi quem a sonhou, ainda que lhe tenha sido consagrada numa bandeja de prata e ouro por um qualquer deus com bazófia de Cupido madrugador. Mas era isso. Estava por dias, senão por horas, a mais secreta declaração de amor que alguma vez tenha tido coragem de conhecer em si mesmo. Mas não haveria de lhe falar já da razão da sua inspiração. Nem sabe se alguma vez o fará. Não suportaria, para já, deixar estilhaçar em mil pedaços a desmesurada felicidade que lhe anda aí estampada no rosto.

Crash

105_0560_written.jpg

Uma colisão. Não a de sábado à noite no Quarteto, mas uma colisão de ideias. Chocavam todas, umas contra as outras, dentro da sua cabeça e, está visto, não foi nada sensato pedir esclarecimento à mistela de cachaça com mel e aos mojitos sob a desculpa de que o sábado serve para aliviar tensões. Mentia descaradamente a todos. “Então e coisas?”: A pergunta era já habitual na amiga com quem partilhou a mesa do restaurante, no domingo, mas ele disparou também a resposta habitual… e desta vez errada: “Nada de novo. O Sporting perdeu, mas isso tu já sabes”. E mais um copo foi então entregue à epopeica tarefa de lhe colocar as ideias na ordem entre conversas de desventuras. Aquelas que o velho Páginas Tantas já se habituou a ouvir para dar por encerrado o fim-de-semana.

Uma Velha Melodia

Escutei-a nitidamente, esta noite. Há quanto tempo?… Estava a fazer-me muita falta ouvir a chuva cair assim enquanto a cama é todo o meu mundo. Bom dia a todos.

A Música Vestiu-se de Sonho

102_0252_written.jpg

Começou o dia com os acordes na cabeça. Finalmente parecia-lhe que tinha ali o esboço de uma música, a música que se tinha prometido fazer-lhe. Ele não sabe bem como aconteceu, foi como se tivesse sonhado com a melodia. Às vezes é assim mesmo, gasta-se o tempo e cansam-se os dedos nas cordas da guitarra a forçar o que simplesmente sairia descabido para, de repente, a música vestir-se de sonho e chegar de madrugada. Mas logo hoje?, pensou, revoltado por ser o primeiro dia de trabalho depois das merecidas férias. Ele já tinha dedicado boa parte da sua inspiração a pensar como fugiria ao estúpido e já costumeiro “Souberam a pouco” perante a desinteressada pergunta “Como correram as férias?”. Talvez o alento lhe tenha surgido dos “Edukadores”, na sessão da noite do King, na véspera. Tinha-se esquecido da existência de Jeff Buckley. E os seus acordes, no enredo, o dedilhado daquelas doces cordas, no meio daquele amor revoltado e revolucionário, ficavam a matar. As notas ecoaram-lhe ao longo de todo o dia como se de um anjo da guarda se tratasse. As notas da música para ela, finalmente. Uma música para ela, sim, era isso.